27 de set de 2010

Há dias ronda por aqui umas idéia sobre democracia e representação, assuntos que ocupam lugar cativo nessa minha cabeça que tem ciência política como formação. E a eleição traz muita lenha pra queimar sobre o assunto, por supuesto.
Aí lendo esse post da querida Mary W, e o post da Camila sobre Netinho de Paula, me deu vontade de escrever sobre representação.
Comecemos pelo Netinho, candidato a senador por São Paulo, pelo PCdoB. O dilema: votar ou não votar num candidato que tem em sua biografia caso ou casos de agressão à mulheres?
Para entrar nesse terreno, me parece pertinente voltar à idéia de representação. Então eu digo que acho bastante legítimo uma militante do movimento feminista não votar em Netinho. Porque essa militante tem uma causa, e essa causa luta contra exatamente isso, a violência contra mulher, nas suas várias e várias formas. Mas aí temos um manifesto de feministas que apoioam Netinho. E eu digo que acho bastante legítimo, também, esse voto e esse apoio. Por quê? Porque sou da turma do deixa disso e gosto de todo mundo? Não. Porque eu vejo uma clara representatividade nesse voto. Observem que as feministas que apoiam o Netinho são também militantes do PCdoB. Temos aí duas causas: o feminismo e o partido. E a junção entre movimento social e partido não é apenas comum, como de grande valia: agrega força e voz ao movimento.
Logo, ambas posições são legítimas e dignas de respeito. Seria possível argumentar que a posição das militantes feministas do PCdoB (e também do PT, que é da coligação) colocam o partido acima da causa feminista quando optam por um voto "pragmático" como esse, pois o partido está acima da causa, etc. etc. Seria possível, mas digo logo que discordo desse argumento. E acho raso. Porque existem alas do movimento feminista que acreditam que, através da política e da eleição de quadros do partido para o qual militam, pode-se obter ganhos efetivos para a causa feminista. Seja simplesmente (e sabemos que não é pouco) por colocar o assunto na pauta e fazer dele agenda de política, seja pelas políticas que efetivamente se consegue implementar quando se tem no senado um candidato do seu partido.
Porque, de feminismo eu entendo pouco, assumo e retomo daqui a pouco. Mas de política partidária entendo um pouquinho mais. E digo que é apressada a análise de quem não reconhece que depois de toda a discussão em torno do crime cometido por Netinho, ele vai para o Senado e se lixa para a questão da mulher, ou comete de novo um crime e etc. etc. etc. Netinho será MUITO cobrado por cada uma dessas mulheres militantes que o apoiam. Ou a gente vai achar que mulher é bobinha e tá apoiando o cara como pau mandado do partido? Não, a gente não vai achar isso, né? Peloamor.
Então meu resumo da ópera 1 é: as militantes feministas que apoiam Netinho acreditam que é melhor tê-lo como Senador do que perder a vaga para um Tuma (exemplo de respeito aos direitos humanos). Vão cobrar dele cada centavo desse apoio, porque não são bobinhas, ao contrário, são mulheres de luta, e diante disso, admiráveis. E tem mais uma coisa. São tão espertas, essas feministas, que se aliam a um cara com grande representatividade: um negro da Cohab.
E vamos lá: Netinho representa sim o negro, pobre, da periferia, chegando ao Senado. Tem apelo popular. Tem apoio em movimentos de base (e pra quem não conhece movimento de base é preciso dizer: isso é bem importante nas periferias, é uma das principais bases do PT e esses caras não são de brincadeira não: vão cobrar o cara também). Tem apoio do movimento negro. Porque, afinal de contas, essa também é uma causa, ou não é? Quem disse que o feminismo é mais legítimo que o movimento negro? Ninguém me disse, e espero, não diga nunca, nem insinue. São movimentos importantíssimos. Somados, nossa. Enchem de legitimidade o voto. E vamos lá: temos uma feminista candidata. Temos a chance de ter uma feminista e um representante do movimento de base apoiado pelo movimento negro. Não dá pra ter tudo, mas, sinceramente, temos bastante.
E eu confesso que sinto medo do voto elitista contagiando petistas e simpatizantes, sabe? O repúdio ao pagodeiro da Cohab, agressor de mulheres. Porque, se militantes feministas apoiam o cara (não são todas as militantes feministas, devemos ressaltar) e o que temos como alternativa a ele, de fato, é Tuma e Aloísio Nunes. Ah, minha gente. Sem demonizar, né?
E por fim eu faço minha declaração de voto. Pensei bastante para fundamentar meu voto no Netinho. E de antemão eu digo a vocês que seria difícil não votar pela orientação do partido. Porque, se estou falando de representação, preciso falar do que me representa. E antes de mais nada, em se tratando de política, o PT me representa. E eu tendo a confiar, na maioria esmagadora das vezes, nas orientações do meu partido. Mas em se tratando do Netinho, foi preciso refletir. Porque o feminismo também é uma causa no meu mundo. Embora eu não seja feminista no sentido literal do termo - e eu digo isso com muito respeito ao movimento: não tenho história no movimento feminista para me intitular uma feminista como me intitulo petista - eu considero a causa de suma importância, ela tem todo meu apoio, respeito, e a militância. Aí procurei saber o que as militantes feministas do partido pensavam. Conversei com amigas feministas. E formulei a minha argumentação de voto que é a seguinte: temos uma feminista no Senado. E com Netinho, teremos um representante do movimento de base. Eu considero essa dupla bastante representativa para o partido. E sei que, se o partido o escolheu, vai cobrar dele postura digna de um senador que foi apoiado pelo PT e sua história enquanto partido de base; as feministas que o apoiam vão cobrar também. E eu prefiro claro, dois senadores da nossa coligação do que um voto de protesto*. E eu prefiro também, que ele esteja do nosso lado, envergonhado pelo que fez e respondendo à altura do apoio que recebeu. E vocês podem dizer que eu sou otimista demais, que lhes digo, sou mesmo: é bacana quando a militância carrega otimisto, na minha modesta opinião. E otimismo foi o que eu nunca deixei de ter com meu partido. Até agora, temos ido muito bem.

*voto de protesto é o que seria possível nesse caso, pois a candidata feminista não tem chance de ganhar. mas fique claro: eu respeito o voto de protesto de feministas que fizerem essa opção. e acho legítimo.

**continuando a falar sobre representação, quero escrever sobre tiririca. mas me inventaram uma prova de francês na semana da eleição que embolou o meio de campo que já é naturalmente embolado. então, fico só na promessa, por enquanto.

***se você não leu o post abaixo, acho pertinete nessa última semana de campanha. assinado: a modesta.

4 comentários:

mary w disse...

eu concordo com vcs q nao é um voto estapafurdio. concordo mesmo. mas acho q coloca o movimento feminista num plano abaixo da politica partidaria esse voto.

kellen disse...

por isso eu apoio e respeito o voto feminista. mesmo. e acho importante pensar no voto em termos de representatividade. o netinho não te representa.

Haline disse...

Ai, é isso. Falei demais lá na Camila pra dizer isso. É um voto por alinhamento político por prioridade. Não é absurdo, mas pra mim não dá.

Virgílio disse...

Fico feliz de saber que não sou o único que acredita na candidatura do Netinho como algo além de oportunismo eleitoral (como já ouvi por aí). Tem um texto no meu blog falando disso também. Se puder, dê uma olhadinha e comente! ;)
bjs,
Marcos